Como prometido, na seção De Sobremesa do Pelado de Avental,o conto Para Comer, do livro Pólvora, Gorgonzola e Alecrim, do publicitário Lusa Silvestre.
Para Comer
Era impossível não ficar impressionado e invejoso. O sujeito pegava mulher como quem pega resfriado, acabando na cama do mesmo jeito. Obviamente colecionava seus fracassos, graças a Deus, mas os sucessos eram muito superiores em número. E nem era bonito. No máximo, no máximo, ajeitado. Não era narigudo demais, nem suava embaixo das mamicas, nada dessas imperfeições humanas aparentes. Sua maior beleza era ter chegado aos trinta e dois solteiro e com renda, mascarando os defeitos físicos com aquilo que o bom dinheiro traz. Perfumes, carro, academia da boa, livros, um apartamento pra lá de bem montado.
Tinha táticas. Uma vez respingou um beijo na boca de uma moça para mostrar como o Miles Davis soprava o trompete. Sabia de onde tinha surgido a expressão “cara-metade” (de um livro do Platão). E cozinhava. Bem, até. Mas somente dentro de uma lista de dez pratos, o estritamente necessário para facilitar o próprio ciclo de acasalamento. Começava com um humilde fusilli ao sugo, feito com tomate pelado mesmo, e terminava com um espetacular fideuá, aquela paella feita com macarrão em vez de arroz. Veja bem: vamos supor que você goste de homem. Aí vai na casa de um rapaz bem posto na vida, cheiroso, e tromba com um fideuá na mesa. Se a pessoa não tem equilíbrio, se não sabe o que quer da vida, pode apostar: ela tira a roupa depois da segunda garfada e se entrega de corpo e fluidos para ele ali mesmo. Por cima dos caramujos e dos camarões.
Normalmente, a vítima não chegava ao décimo jantar. Pedia “me possua, meu Ducasse” muito antes. O padrão era a conquista se consumar no terceiro dia – paillard com molho de mostarda – e ser administrada em banho-maria até a oitava refeição. Aí, o relacionamento era assepticamente encerrado por ele. Nenhuma tinha tido o privilégio do décimo prato, o tal do fideuá. De quando em vez ele fazia para os amigos, para a família, pra não esquecer a receita. Pra mulherada? Nunca. As desprezadas não se conformavam em perder, ao mesmo tempo, o namorado e a boca-livre. Ligavam, se ofereciam, insinuavam retomar do prato onde tinham parado. Em suma: queriam requentar o romance, pra ficarmos no plano gastronômico. Não acontecia; simplesmente ele não era do tipo que fuçava os tupperwares emocionais em busca de restos amorosos.
Até que Ela apareceu. Conheceram-se num rodízio de sushi, hora de almoço executivo dos dois. Começaram a se medir de longe, primeiro trocando olhares, depois sorrisos. Assim que a coincidência permitiu, ele deu um jeito de encontrar com Ela em frente aos tekamakis, no bufê. Papo vai, papo vem, e já estavam na mesma mesa, deixando os companheiros de trabalho a ver barcas de sushi.
Saíram. Cineminha, jantar. Despediram-se inocentemente com um, dois beijinhos nas faces, a despeito de toda ginástica labial que ele fez pra encostar um pedaço da boca num pedaço da boca. Ficou pro segundo encontro. Jantar, três dias depois, outro restaurante. Seria importante espaçar um pouco mais esse segundo encontro, tipo uns cinco dias entre evento um e evento dois. E como faz se ele não agüentava de ansiedade? Teria roído as unhas se elas tivessem sabor. E do jantar, foram pra casa. Cada um pra sua. Nesse dia, ele não resistiu: chegou em casa e se entupiu de chocolate. Belga.
Apelou, convidou Ela pra jantar em sua casa num sábado – sua casa, seu território, seus alçapões. Sábado, percebe? Dia de ficar em casa assistindo Saturday Night Live, bêbado. Pois abriu mão desse vício. Quando um homem passa dos trinta morando sozinho, acaba acumulando manias, e essa era uma: jamais sair no sábado. Ela valia a pena.
De cara pulou o fusilli, já preparando a receita do segundo jantar, mais impactante para uma visita inaugural ao seu abatedouro. Frango tailandês. Exótico, pimentas agridoces, um prefácio dos temperos com que esperava encerrar a noite. Ela comeu, gostou. Ele só gostou, se me entendem. Nem um mísero selinho, e olha que tocava Norah Jones no home theater.
Ela somente permitiu um beijo no sétimo jantar. Na nona refeição, talvez pela cara de faminto dele, ela sentiu piedade e o clima esquentou. Não passou do ingênuo tato dos colegiais. Ficou o gostinho do quero mais, em quantidade e profundidade. Porém, cego de bulimia sexual, nem se tocou que seu repertório de forno e fogão se encerrava. A última cartada era o fideuá, até então invicto. Jamais alcançado. Prato de derrubar Luana Piovani.
Convidou a moça pra jantar, mais uma vez. O zelador nem mais anunciava Sua chegada; Ela simplesmente pegava o elevador e ia. Abriu um vinho e preparou sua melhor receita. Nervoso, quase perdeu o ponto dos camarões. Você sabe, camarão fica pronto rápido; se você colocar um no bolso e sair pra caminhar ao meio dia, fica no ponto antes da esquina. Serviu o fideuá, Ela adorou. Comeu de raspar o prato, repetindo como se não houvesse calorias no mundo.
Foi aí que o fideuá se revelou um prato pesado. Quem podia pensar em noite de amores e prazeres com metade dos bichos do Oceano Atlântico nadando em seus sucos gástricos? Acabaram a noite com um expresso, e Ela se foi virgem como um azeite. E agora? Esgotado seu repertorio de receitas, ou desistia da moça, ou aprendia mais pratos. Ou fugia, acovardava, ou ia adiante, até não sobrar uma azeitona no mundo para servir a sua musa.
Foi à luta. Enquanto houvesse fome, haveria esperança. Assinou uma revista de culinária. Começou a gravar os programas de cozinha do People and Arts. Fez curso de risoto. Cozinhou. Experimentou. Estudou. E, finalmente, quando mal entrava em suas calças, quando teve vergonha de ficar nu na frente Dela, quando seu umbigo ficou profundo como a fossa das Marianas, quando ele já estava suficientemente dilapidado em suas convicções para tornar-se fiel, Ela voltou, e se entregou.
O gozado é que foi justo no dia que pediram pizza.


